24.5.12

Tomem e embrulhem - Luis Miguel Cintra, zangado, sobre o Portugal que não é






- Luis Miguel Cintra, zangado, sobre o Portugal que não foi e o que não é - mas que precisa urgentemente de ser, para daqui a 25 anos ser melhor para os nossos filhos (ou sobrinhos, ou netos, todos os mais novos que nos continuarão), ou seja, nós próprios na nossa condição última. Mas como fazer isso se estamos reféns dos sistemas? se somos números (entradas indexadas) em bases dados de clientes (ou utentes, ou funcionários), deficientemente programadas para a nossa diversidade infinita, que nenhum sistema, por mais sofisticado que seja, poderá alguma vez replicar? E a tristeza dele é um pouco a minha, que me vejo grega para ser portuguesa.

21.5.12

Maurice Ravel (um retrato de 1928)


                             © Direitos reservados
                             Fonte: Bibliothèque nationale de France (gallica.bnf.fr)

11.5.12

Bernardo Sassetti (1970-2012)


Sobre o tempo que é o da infância das suas duas filhas, diz que tende a fechar as pessoas dentro de universos informáticos. Pensa que se perdeu o prazer do encontro e da descoberta, e que as crianças estão viciadas em coisas que não passam de produtos de grande consumo. “Está tudo à venda, e toda a gente quer ter tudo. Mas é preciso criar limites, porque as crianças não podem sofrer com este problema que é o de uma sociedade.” Na casa do pianista Bernardo Sassetti toca-se piano, canta-se, e lê-se.
Bernardo da Costa Sassetti Pais
Lisboa, 24 de Junho de 1970

«Sou o último de oito irmãos, quatro rapazes e quatro raparigas. Nasci e fui criado na Rua D. Pedro V, num prédio que ainda hoje tem a melhor vista de Lisboa, com uma varanda a toda a volta, o que deu sempre muito que falar, pelo perigo. Havia algumas salas comuns e havia os quartos, que eram divididos pelos irmãos, dois rapazes, duas raparigas. Eu dormia num beliche com o meu irmão Francisco (que tem mais 6 anos do que eu), que era a minha referência na família e que eu seguia, tanto para as brincadeiras como para a música, porque ele foi o primeiro a dar o passo. Nós experimentámos todos o piano, mas ele foi o primeiro a querer seguir a carreira musical, e eu segui-o.

Lembro-me de vibrar com as reuniões promovidas pelo meu pai e pelos meus irmãos mais velhos - fazíamos jogos de palavras, projecção de slides de quadros em que tentávamos adivinhar o autor do quadro, com o meu pai sempre à frente do acontecimento. O meu pai era a peça-chave da família a transmitir e a promover constantemente a cultura, e fazia-o de uma forma muito interessante. Fotografava e chegou a ganhar prémios de fotografia com imagens dos filhos. Metia-se no carro, ia viajar pela Europa, e fotografava - e depois fazia slides e projectava-os nessas reuniões familiares que eram sempre experiências muito vibrantes.

A minha mãe era uma verdadeira mãe à italiana, e era a senhora da família. O bisavô da minha mãe era italiano, de Florença. Sim, é desse bisavô que vem o meu apelido. O meu pai vem da família Freitas Branco, que tem como se sabe uma grande ligação à música. São de Lisboa, sim. O maestro Pedro de Freitas Branco e o compositor Luís de Freitas Branco tiveram um peso grande na acção cultural que sempre moveu a minha família, sobretudo na música, no teatro, no espectáculo. Há depois o ramo Pais, do Sidónio Pais, que era avô do meu pai, que também se chamava Sidónio. Existe sempre um Sidónio, em todas as gerações até aos dias de hoje - tenho um sobrinho chamado Sidónio, que é filho do meu irmão Sidónio.

A minha infância permitiu-me uma vivência de comunidade, porque debaixo da minha casa havia quatro andares de pensão, cujos donos, muito simpaticamente, acolheram famílias de exilados angolanos, que viviam em quartos, em autênticos acampamentos. Eu tinha os brinquedos que herdava dos meus irmãos, e eles não tinham nada. Ter a oportunidade de partilhar as minhas coisas com pessoas seriamente desfavorecidas foi para mim fundamental. Quando eles começaram a perder as cerimónias íamos brincar para as escadas, a seguir à escola.

Traquinices? Ui, tantas! (risos) Na minha casa havia um alçapão, e as janelas do alçapão davam para as casas de banho. Com o meu irmão Francisco e com a minha prima Inês, que era a minha melhor amiga e companheira de todos os momentos, a grande brincadeira era fechar as portas das casas de banho à chave, e saltar de janela em janela. Estamos a falar de um quinto andar... tínhamos uma elasticidade fabulosa, aquilo para nós “eram favas contadas”, claro. 

Lembro-me também do filho da costureira da minha mãe, o Quim, que ia lá todos o sábados, quando a mãe ia. Com ele eu tinha uma brincadeira que consistia em encher sacos de plástico cheios de água, esperar pela excursão de japoneses que parava sempre lá em baixo na rua, e lançar os sacos, a uns metros deles, o que produzia um estrondo monumental. Nós assumíamos aquilo e ficávamos à varanda, e quando eles olhavam para cima dizíamos adeus! (risos) Íamos também pelas escadas de serviço até ao telhado, subíamos às chaminés das outras casas, pulávamos de telhado em telhado... enfim, verdadeiras loucuras, claro. Se soubesse as saudades que eu tenho de andar nos telhados!» 

©  Sarah Adamopoulos (originalmente publicado na revista PAIS&Filhos, rubrica Velha Infância)

2.5.12

Fernando Lopes (1935-2012)




Gérard, Fotógrafo, um filmezinho-retrato muito belo que Fernando Lopes fez sobre Gérard Castello-Lopes, seu amigo. Muito para além disto, Fernando Lopes deixa uma obra cinematográfica pessoalíssima.



FILMOGRAFIA DE FERNANDO LOPES
Em Câmara Lenta (2012)
Os Sorrisos do Destino (2009)
Ela por Ela (2006)
98 Octanas (2006)
Lá Fora (2004)
Tomai Lá do O'Neill (2004)
O Delfim (2002)
Cinema (2001)
Gérard, Fotógrafo (1998)
Lissabon Wuppertal Lisboa (1998)
O Fio do Horizonte (1993)
Matar Saudades (1988)
Crónica dos Bons Malandros (1984)
Lisboa (1979)
Nós por cá Todos Bem (1978)
Cantigamente (1976)
O Encoberto (1975)
Uma Abelha na Chuva (1972)
A Aventura Calculada (1972)
Nacionalidade: Português (1972)
Era Uma Vez... Amanhã (1972)
Vermelho, Amarelo e Verde (1969)
Hoje, Estreia (1967)
Tejo na Rota do Progresso (1967)
Cruzeiro do Sul (1966)
Se Deus Quiser (1966)
Belarmino (1964)
Rota do Progresso (1964)
As Palavras e os Fios (1962)
O Voo da Amizade (1962)
As Pedras e o Tempo (1961)

1.5.12

23.4.12

Para quem é o Mundo

O mundo é para quem nasce para o conquistar - lido num e-mail do programa de tv Clube da Palavra, no canal Q. Então e os outros? fazem o quê? perdem o quê? ganham o quê? Não podendo ser todos conquistadores (Senhor, por que nos fizeste assim, com essas manias de grandeza e aventura?), sempre gostava de saber o que acontece aos outros que nasceram só para existir, o que ainda assim tem que se lhe diga, creio, na incerteza de ser eu uma que conquista.

19.4.12

Sarko

" Avant Sarkozy était un inconnu, mais aujourd'hui c'est un nain connu,un nain posteur, un nain compétant, un nain bécile, un nain capable. C'est du grand nain porte quoi!! Comme ils disent dans le sud, c'est aussi un nain culé!!! A faire circuler pour ne pas que Sarkomence!"

18.4.12

Rui Zink à Língua Portuguesa (poema no JL pelos 32 anos da publicação)

Minha pátria, minha língua
Linha pátria, minha míngua
Juro-te, se fores minha gramática
Eu serei tua sintaxe.
É que, em ti, gosto de tudo
Dos sons, dos ecos, da surdez
Até das tuas rimas fáceis
Em êxtase, em êxtase.
Certo, nem sempre nos entendemos
Desgosto quando dizes atempadamente
E tu enxofras com os meus isso é suposto.
Mas não tem mal
Um dia, num presente distante
Voaremos juntos a uma ilha deserta
Lá cantarás só para mim
E eu, enfim (prometo que sim)
Calar-me-ei de vez
Só para ti.
Seremos não mais uma língua
e seu falante
Tão só uma palavra (uma palavra simples)
e o seu não menos discreto
amante.

16.4.12

um banco não é um casino

ANTÓNIO CHAMPALIMAUD
Lisboa, 1978
Banco Pinto & Souto Mayor
1.ª edição
20,8 cm x 14,9 cm

A lição que deve tirar-se desta breve intervenção do banqueiro Champalimaud na reunião trimestral da direcção do referido banco constitui menos a expressão de um visionário do que o alerta frio e acutilante para aquilo com que a banca em geral veio, posteriormente, fazer escola. Quem hoje vê o estado selvagem a que chegou a finança, à escala planetária, certamente encontrará ressonâncias assustadoras nas palavras a seguir transcritas:
«[...] Dentro do estatuto legal que nos rege, de banco comercial, seria puro jogo de azar recolher depósitos sob a sua égide e lançá-los por forma generalizada no mercado do financiamento que está protegido por outro estatuto que é aquele que rege os bancos de investimento, até aqui monopólio do Estado. Proceder por forma diferente conduziria necessariamente a praticar lances de fortuna. Ora, recordo, meus senhores, que um banco não é um casino.»

Na livraria de Paulo da Costa Domingos.

11.4.12

E enquanto os brasileiros escrevem os portugueses contam tostões [Alexandra Lucas Coelho]

1. Sento-me com uma amiga a almoçar em Lisboa e ela conta-me que está a viver com 300 euros por mês. Transfere-os todos os meses da conta-poupança para a conta-corrente. Isto é possível porque, aos 35 anos, continua em casa dos pais, no seu quarto de rapariga, onde agora tem o computador, primeira coisa que liga todas as manhãs. Vive com muito pouco e sente-se uma sortuda por ter bom ambiente familiar. Durante anos aguentou-se num emprego que detestava, largou-o finalmente para tentar escrever e traduzir. Da escrita ganha nada, a tradução varia entre sete e oito euros e meio por página. Um livro de tamanho médio, que lhe leva três meses de trabalho, representa mil e tal euros de remuneração. É assim que a literatura estrangeira está a ser traduzida em Portugal. À custa desta falta de alternativa. (...)

7.4.12

Pessoa

«Já o vimos hastear a bandeira “à portuguesa” e há coisa de um ano vimo-lo subir a escadaria da Assembleia da República para se despedir de José Sócrates com um “drive”. Já lemos “A Globalienação do Capitaclismo”, “O Fascinismo da Democrapatia” e “Penso mas não existo”. Miguel Januário (aka MaisMenos) gosta de existir. Desta vez, o artista pegou num colete reflector com o stencil “jornalista” e vestiu a estátua de Fernando Pessoa na esplanada do café “A Brasileira”, remetendo para a última greve geral e para a carga policial “no geral, adequada e proporcional” que resultou em agressões a fotojornalistas da AFP e da Agência Lusa. Este “streetment” de MaisMenos é acompanhado pelo texto “Liberdade”, de Fernando Pessoa.» - in Público, P3 de 06-04-2012

28.3.12

liberalizações=massacre social

Electricidade mais cara e despedimentos mais fáceis. Ainda mais miséria, portanto. É preciso rever a lei eleitoral com urgência, e redefinir os princípios da representatividade política, idealmente no sentido da democracia participativa, i.e., no da responsabilização e iniciativa cidadã - de que as experiências locais de orçamentos participativos constituem exemplos, mesmo se ainda frágeis e reféns das lógicas representativas.

A minoria de votantes não pode continuar a abrir caminho para os homens de negócios que estão a ameaçar de morte os fundamentos do Estado social - figura necessária na tradição democrática europeia, ao contrário do (já decadente) modelo liberalíssimo da sociedade norte-americana.